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A DOUTRINA DA INDIVIDUALIDADE: EXISTE MESMO “MALDIÇÃO HEREDITÁRIA”?

Pastor Alexsandro dos Reis Fernandes

Neste semestre, estamos estudando em nosso Instituto Teológico os livros proféticos e, dentre os importantes temas abordados, destacamos a Doutrina da Individualidade, presente no livro do profeta Jeremias e, em especial, Ezequiel.
Ezequiel viveu numa das épocas mais difíceis para o povo hebreu. O rei Nabucodonosor havia invadido o território judaico, saqueando e destruindo a cidade de Jerusalém. Não bastasse, aprisionou e encaminhou grande contingente judeu para o exílio na Babilônia, inclusive, o próprio profeta.
Os israelitas passaram a buscar responsáveis por esse caótico cenário. Culparam, então, seus antepassados, se apoiando num famoso provérbio popular da época que dizia o seguinte: “os pais comeram uvas verdes, e os dentes dos filhos se embotaram”1 (Ez 18:2). Noutras palavras afirmavam os judeus o seguinte: “Nossos pais pecaram, e nós, os filhos, estamos sendo castigados por isso. Não importa o que fizemos, ainda teremos de sofrer por causa dos atos da geração passada”.
Essa era a crença predominante entre o povo hebreu: a geração atual, dominada por Nabucodonosor e exilada na Babilônia, suportara o peso da maldição lançada por Deus sobre seus antepassados. Mas, afinal, de onde haviam tirado essa ideia?
Primeiramente, da apressada e errônea interpretação de alguns trechos da Lei, especialmente aqueles presentes em Êx 20:1-62 , Êx 34:4-73 , Nm 14:184 e Dt 7:9-105 .
Tais dispositivos da Lei, certamente, alertavam o povo para o fato de que o Senhor era zeloso e, em razão disso, visitaria a iniquidade dos pais nos filhos por longas gerações. Contudo, isso somente ocorreria se as gerações futuras persistissem nos erros cometidos pelas gerações passadas. Noutras palavras, filhos e netos responderiam pelos pecados dos pais apenas se continuassem agindo como eles, praticando os mesmos pecados.
O próprio Moisés deixa clara essa interpretação, ao afirmar que “os pais não” seriam “mortos em lugar dos filhos, nem os filhos, em lugar dos pais”, mas que cada qual seria morto ou suportaria as consequências de seus próprios pecados (Dt 24:16). Na verdade, analisando todo o contexto, salta aos olhos a torpe intensão dos exilados judeus de atribuírem a terceiros a responsabilidade pelo caos que se abatera sobre eles. Não podemos questionar o fato de que as gerações anteriores andaram em completa rebeldia contra o Senhor. Lado outro, afigura-se inquestionável que idêntica postura foi adotada pelos israelitas contemporâneos às invasões babilônicas e ao exílio. A mesma conduta idólatra, rebelde e corrupta verificada em relação aos antepassados hebreus era facilmente identificada na geração atual.
Em segundo lugar, a visão equivocada dos israelitas sobre a questão estribava-se também na concepção sobre a existência de uma unidade ou solidariedade nacional. Por essa ótica, se um israelita desobedecesse ao Senhor e pecasse, era como se todo Israel tivesse desobedecido e pecado. Portanto, a nação inteira receberia sobre si o peso desse pecado por simples e automática transferência.
Finalmente, de acordo com a lei de Moisés, animais inocentes poderiam sofrer e morrer no lugar de pecadores culpados, alusão feita aos sacrifícios de animais pela expiação de pecados. Essa “lógica” acabou sendo transferida para a relação entre o povo hebreu e o Senhor. Assim, a geração contemporânea a Jeremias e Ezequiel se considerava inocente em relação às anteriores, o que, obviamente, não correspondia à realidade.
A partir do capítulo 18, Ezequiel enfrenta a questão de forma minuciosa e passa a explicar a verdade sobre o juízo de Deus e Sua justiça, rechaçando ao final as equivocadas e convenientes “teses” entabuladas pelo povo hebreu. Orienta o povo hebreu a não mais citar o provérbio popular, deixando claro que o peso do pecado recairá apenas e tão somente sobre os ombros daquele que pecar, verbis:
“2. O que vocês querem dizer quando citam este provérbio sobre Israel: ‘Os pais comem uvas verdes, e os dentes dos filhos se embotam’? 3. Juro pela minha vida […] que vocês não citarão mais esse provérbio em Israel. Pois todos me pertencem. Tanto o pai como o filho me pertencem. Aquele que pecar é que morrerá.” (Ez 18:2-3) (destaque nosso)
Adiante, o profeta reitera seu discurso, merecendo destaque o versículo segundo o qual “a alma que pecar, […] morrerá” e, nesse jaez, “o filho não levará a iniquidade do pai, nem o pai levará a iniquidade do filho.
“Contudo, vocês perguntam: ‘Por que o filho não partilha da culpa de seu pai?’ Uma vez que o filho fez o que é justo e direito e teve o cuidado de obedecer a todos os meus decretos, com certeza ele viverá. A alma que pecar, essa morrerá; o filho não levará a iniquidade do pai, nem o pai levará a iniquidade do filho. A justiça do justo ficará sobre ele e a impiedade do ímpio cairá sobre ele.” (Ez 18:19-20) (destaques nossos)
Como se denota, o profeta Ezequiel, de forma simples, clara e objetiva esclarece que não existe simples e automática transferência de responsabilidade ou castigo imposto aos filhos e netos, pelos pecados cometidos pelos seus genitores. Isso somente ocorrerá – Deus somente “castigará a maldade dos pais nos filhos” – se estes mantiverem os caminhos pecaminosos outrora trilhados pelos seus pais.
Tal realidade, obviamente, não exime filhos e netos de vez ou outra suportarem as consequências dos erros cometidos por seus genitores. Um pai que vive de maneira desregrada, gastando de forma descontrolada, dilapidando seu patrimônio, poderá no futuro deixar seus descendentes em dificuldades financeiras, por exemplo. Mas isso é o que poderíamos chamar de “consequências sociais” do pecado, algo totalmente diferente da punição direta e automaticamente delegada aos descendentes, nos termos defendidos pelos judeus na época do profeta Ezequiel. Há, contudo, uma única exceção a essa regra, conforme veremos a seguir.

O LEGADO DE ADÃO
Deus, após formar o homem, o colocou no Jardim do Éden com a incumbência de dele cuidar e cultivar. Estabeleceu ainda a regra segundo a qual, poderia comer livremente os frutos de qualquer árvore do jardim, exceto da árvore do conhecimento do bem e do mal. A violação desse claro e simples comando traria consequências gravíssimas, sendo a morte espiritual a pior delas (Gen 2:15-17). O Senhor externava Seu claro desejo de estabelecer com o homem uma relação pautada pela confiança e pela obediência.
Contudo, Adão insurgiu-se contra Deus, comeu do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal, desencadeando um terrível processo de penalização que atingiria toda a humanidade.
Este é o “legado adâmico”, a herança sobre a qual o apóstolo Paulo se manifesta na epístola escrita à Igreja situada em Roma da seguinte forma:
“Portanto, da mesma forma como o pecado entrou no mundo por um homem, e pelo pecado a morte, assim também a morte veio a todos os homens, porque todos pecaram.” (Rm 5:12)
Segundo o apóstolo Paulo, todas as gerações posteriores a Adão foram atingidas pelo pecado cometido por ele. Herdaram, pois, a maldição ou as consequências negativas decorrentes da desobediência cometida no Éden, sendo a pior delas, a predestinação ao inferno, à morte eterna.
Contudo, em meio a esse trágico quadro, Deus confere ao homem o “escape”, o caminho para a quebra dessa maldição hereditária: Jesus Cristo. Nas palavras do apóstolo Paulo, “se você confessar com sua boca que Jesus é o Senhor e crer em seu coração que Deus o ressuscitou dentre os mortos, será salvo. Pois com o coração se crê para justiça, e com a boca se confessa para salvação.” (Rm 10:9-10)
Portanto, todo homem nasce predestinado a passar a eternidade longe de Deus, traz consigo a herança maldita recebida de Adão. E essa maldição só pode ser quebrada por Jesus, por seu sangue, através da conversão.

CONCLUSÃO
Os exilados judeus lançavam sobre seus antepassados a total e exclusiva responsabilidade pelos terríveis momentos que viviam; afinal, seria muito mais fácil e conveniente agirem assim, do que aceitarem o fato de que a adoção de novas posturas, diferentes daquelas vivenciadas por seus genitores, teria certamente aplacado a ira divida e evitado tamanho sofrimento.
Essa transferência de responsabilidade ou de culpabilidade não é um fenômeno restrito a épocas passadas; ao contrário, é moderno e encontra-se presente em nossos dias sob o nome de “maldição hereditária”. Problemas e crises de toda ordem são tratados por muitos como castigos decorrentes dos pecados cometidos por seus antepassados. Muitos desses problemas e crises seriam resolvidos se cada um reconhecesse seus erros, se arrependesse, buscasse o perdão junto ao Senhor e mudasse de postura.
A única “maldição” que realmente herdamos é aquela decorrente do pecado de Adão. Mas ela pode ser quebrada. Basta confessarmos que Jesus Cristo é o Senhor e crermos em nossos corações que Deus o ressuscitou dentre os mortos. Pois, conforme lembrado pelo apóstolo Paulo, “com o coração se crê para justiça, e com a boca se confessa para salvação” (Rm 10:9-10).

Notas:
1 A mesma expressão é encontrada em Jeremias 31:29.
2ENTÃO falou Deus todas estas palavras, dizendo: Eu sou o SENHOR teu Deus, que te tirei da terra do Egito, da casa da servidão. Não terás outros deuses diante de mim. Não farás para ti imagem de escultura, nem alguma semelhança do que há em cima nos céus, nem em baixo na terra, nem nas águas debaixo da terra. Não te encurvarás a elas nem as servirás; porque eu, o SENHOR teu Deus, sou Deus zeloso, que visito a iniquidade dos pais nos filhos, até a terceira e quarta geração daqueles que me odeiam. E faço misericórdia a milhares dos que me amam e aos que guardam os meus mandamentos. (destaque nosso)
3Assim Moisés lavrou duas tábuas de pedra semelhantes às primeiras e subiu ao monte Sinai, logo de manhã, como o Senhor lhe havia ordenado, levando nas mãos as duas tábuas de pedra. Então o Senhor desceu na nuvem, permaneceu ali com ele e proclamou o seu nome: O Senhor. E passou diante de Moisés, proclamando: “Senhor, Senhor, Deus compassivo e misericordioso, paciente, cheio de amor e de fidelidade, que mantém o seu amor a milhares e perdoa a maldade, a rebelião e o pecado. Contudo, não deixa de punir o culpado; castiga os filhos e os netos pelo pecado de seus pais, até a terceira e a quarta gerações”. (Êx 34:4-7) (destaque nosso)
4O Senhor é muito paciente e grande em fidelidade, e perdoa a iniquidade e a rebelião, se bem que não deixa o pecado sem punição, e castiga os filhos pela iniquidade dos pais até a terceira e quarta geração.
5Saibam, portanto, que o Senhor, o seu Deus, é Deus; ele é o Deus fiel, que mantém a aliança e a bondade por mil gerações daqueles que o amam e obedecem aos seus mandamentos. Mas àqueles que o desprezam, retribuirá com destruição; ele não demora em retribuir àqueles que o desprezam.

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